segunda-feira, 2 de novembro de 2009

La Calavera de la Catrina


No México se comemora o dia dos mortos com festa e cor, e a personagem mais especial do dia é La Catrina, a simpática caveirinha vestida de dama da sociedade. Vi a imagem de La Catrina a primeira vez quando era criança, em algum filme antigo, fiquei fascinado, sempre fui curioso e a morte ao invés de me assustar, me causava indagações profundas, ainda mais uma morte tão caricata e bem arrumada!


Mas este ano conheci La Catrina de perto, enxerguei sua face e não a achei tão simpática assim...
Uma amiga suicidou-se este ano, deu um tiro no próprio peito com uma arma velha, era a madrugada de uma segunda, no domingo passamos o dia juntos, quando cheguei desesperado em sua casa cheia de policiais e vizinhos, corri para consolar sua irmã, minha outra amiga, a forte sobrevivente, a abracei e ela me disse “ Que besteira ela foi fazer Niva?!” disse isso de um jeito que nunca poderá ser reproduzido, com tamanha dor, tamanha coragem... Então vi minha amiga morta no corredor, inerte, hoje sei, que foi ali que vi La Catrina, desdenhado da brevidade da vida. Fiquei estranhamente tranquilo, algo se apoderou de mim e me fez fleumático, precisava estar inteiro, firme para os que precisassem de mim, a dor transpassava meu corpo sem me atingir, eu era o fantasma naquela casa, amortecido.


Vi minha amiga morta sendo fotografada pelos legistas, abracei sua irmã enquanto periciavam o quarto onde tudo aconteceu, e a olhei pela última vez, nunca esquecerei o que vi, a pior despedida. Quando levaram minha amiga achei justo eu limpar o sangue que ficou no local de sua morte, não poderia deixar a mancha de sua ida assombrando os que ficaram, muito menos deixar para outro, um estranho, esta tarefa, me ajoelhei e fiz o que tinha que ser feito, o cheiro ficou nas minhas mãos por dias inteiros por mais que eu lavasse.


Depois de horas eu chorei, tremi de dor, física!... “Por que você fez isso? Passamos o domingo juntos, você parecia bem, por que não pediu ajuda? O que eu deixei de fazer? O que deixamos de conversar? Por que eu não notei nada? Por que não pressenti nada? Por que não impedi sua ida?”


La Catrina quando chega traz também culpa.


Já parei de me perguntar o porquê dela querer ter ido embora, não julgo sua escolha, não resta em mim culpa, mas sinto saudades, ainda não tenho forças para celebrar a morte, não consigo mais ver La Catrina com olhos bem humorados, ela é agora uma dama fria me lembrando das coisas finitas, porém não a temo, mas também não a abraço. Me recuso.


A mim e aos que ficaram, testemunhas desta despedida, resta a escolha de continuar a viver.


Hoje eu afirmo: Sinto saudades suas, sei que está bem e que a dor passou.

Ps. As imagens deste post são da artista Sylvia Ji.











6 comentários:

Clarissa B. disse...

*Silêncio*

L. disse...

Eu ainda farei uma tatoo a la Catrina. Será meu pequeno e pessoa inferno.
Um beijo,
L.

. marina . disse...

estava pensando nisso essas dias. da naturalidade da morte, e como deveria encará-la melhor. Pessoalmente, sou aterrorizada. Odeio despedidas, não me acostumo ainda com a chegada de La Catrina, que desde quinta não me deixa dormir..Um dia eu aprendo...lindo texto, baby! ;***

3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Nossa, que experiência, amigo. Força para todos.

Obrigada por ter me apresentado Catrina.

Beijão,

Bela - A Divorciada

Clarissa B. disse...

UI... q medo..

Paulinha Costa disse...

Gostei... quero voltar mais por aqui!